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Foto: ADCR Caxinas

Reportagens

“A capacidade de liderança nasce com a pessoa”: dirigismo feminino em estruturas masculinas

Num mundo que aos poucos vai perdendo alguns estigmas, Sílvia Alves e Cláudia Luz são dois bons exemplos de que a competência está acima do género e deixam cair alguns pretensos preconceitos na forma competente como desempenham os seus papéis em clubes com estruturas com predominância masculina.

Sílvia é presidente do Caxinas desde 2002, liderando desde então uma direção que resolveu criar a secção de futsal dois anos depois, deixando para trás o futebol concelhio, que até à data era a principal atividade desportiva do clube do concelho de Vila do Conde. Habituada a assumir a função de líder desde o tempo da escola secundária em que foi presidente da associação de estudantes, acredita que “a capacidade de liderança nasce com a pessoa”, independentemente do género.

A timoneira do clube que irá competir, a partir deste fim de semana, na fase de apuramento da subida à Liga Sport Zone de Futsal, conta que nunca sentiu qualquer tipo de preconceito num meio tão ‘masculinizado’. “Pelo contrário. Até sinto mais respeito, principalmente de pessoas de fora, que se inibem de dizer certas coisas que se calhar diriam se fosse com um homem.”

Face ao cargo que desempenha, Sílvia Alves marca presença assídua nas reuniões da Associação de Futebol do Porto e, por norma, costuma ser a única mulher presente. Curioso é o facto de os seus homólogos dos outros clubes acabarem por dispensar-lhe uma maior dose de cortesia. “Sinto uma maior proteção e atenção. É por isso que sinto mais carinho do que discriminização”, confessa.

Mais recente é a ligação de Cláudia ao mundo do futsal, mas também ela garante que nunca se sentiu descriminada, assumindo apenas que existe “alguma estranheza por parte de elementos de outras equipas, mais por ser uma cara nova e não tanto por ser mulher”, contou-nos a responsável pela organização administrativa da secção de futsal do Belenenses, que desempenha um papel fundamental na organização dos jogos e é a pessoa que faz a ponte com a comunicação social.

Foto: CF “Os Belenenses”

A ‘aventura’ de Cláudia Luz no clube do Restelo começou há três anos e teve como ponto de partida os escalões femininos. O convite foi-lhe dirigido por parte do David Braga – na altura mentor do projeto – para ajudar no escalão júnior, mas entretanto, face a algumas vicissitudes, acabou por assumir esse mesmo escalão na primeira época. Ao fim de dois anos conquistou a confiança dos restantes diretores, que a “levaram” para junto deles nos seniores masculinos.

Mais a norte, dentro de portas, a presidente do Caxinas diz que é “a primeira a meter a mão na massa”, como se costuma dizer, considerando que ter a iniciativa e dar o exemplo “deve ser uma característica de todos os líderes.” De treinadores a diretores, todos gostam que esteja presente. “Sentem que os miúdos têm respeito para comigo. Faço várias vezes de delegada ao jogo em vários escalões.”

Foto: ADCR Caxinas

Para a líder do Caxinas, se por um lado tem que lidar no dia a dia com as dificuldades inerentes a uma organização que envolve muitos atletas, num clube que é uma das principais referências no futsal de formação português, lamentando a falta de mais colaboradores, apoios financeiros e de logística, nomeadamente ao nível dos transportes, por outro lado sente-se recompensada com os laços que vai criando ao longo dos anos. “Sou uma presidente muito presente. Conheço os miúdos todos desde o momento em que entram no clube. Alguns já são pais e lidaram comigo desde os oito anos. Eu acabo por ser como uma mãe para eles”, disse orgulhosa.

Já a relação profissional de Cláudia com os restantes elementos que compõem a estrutura do Belenenses é igualmente boa e sente-se acarinhada por todos. “Tratam-me como ‘um deles’. Felizmente sempre fui bem recebida desde que cheguei ao clube, sem qualquer tipo de diferenciação”, confessou.

Foto: CF “Os Belenenses”

A diretora do Clube da Cruz de Cristo gostaria que o seu exemplo fosse seguido em outros emblemas e que a avaliação do desempenho obedecesse a parâmetros de competência e não de género. “Adoraria ver mais staff’s mistos na Liga Sport Zone. O mundo do desporto está cada vez mais evoluído, sem desigualdades. O desporto no feminino está a dar cartas e são tudo factores que ajudam à integração das mulheres neste mundo que até há bem pouco tempo era exclusivamente masculino. Acredito piamente que podemos todos aprender mais uns com os outros e com essa partilha de ideias e conhecimentos ajudar a que a modalidade evolua ainda mais.”

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