Reportagens
Arnaldo Pereira: “Ainda me sinto com muita vontade de jogar”
Para os Xutos e Pontapés, “de Bragança a Lisboa são nove horas de distância”. Para Arnaldo Pereira o ponto de partida até pode ser o mesmo, mas a “viagem”, cujo destino ainda é uma incógnita, já dura há mais de 20 anos. Aos 39 anos, o mais internacional de sempre com a camisola das Quinas regressou recentemente à 1ª Divisão por intermédio do Rio Ave e parar parece não fazer parte dos seus planos. “Ainda me sinto bem e, enquanto assim for, quero continuar a desfrutar do futsal”, assume Arnaldo, com o sorriso característico de uma criança que acabou de se iniciar na modalidade.
“Se forem perguntas difíceis podemos avançar”, começa por afirmar, entre risos, o ala. A boa disposição dá o mote para a conversa. Depois de voltar a Portugal no início da temporada para representar o GD Viso, Arnaldo Pereira decidiu aceitar o convite do Rio Ave para voltar à Liga Sport Zone. A explicação é simples: “O Rio Ave é um grande clube e ainda me sinto com muita vontade de jogar, aceitar o convite foi fácil”.
Apesar da satisfação pelo retorno à elite do futsal nacional, a verdade é que nem tudo é um “mar de rosas” nesta nova fase da carreira do atleta bragantino. O Rio Ave ocupa o último lugar da tabela classificativa, com apenas uma vitória em 12 partidas. Ainda assim, o cenário parece não assustar Arnaldo, que se mostra confiante para o que falta jogar da temporada.
Da passagem pelo futebol à ida para Espanha
Se a escola é olhada com alguma desconfiança pela grande maioria das crianças, a verdade é que foi neste espaço que Arnaldo Pereira teve o primeiro contacto com a bola. O jogador revela que se iniciou no “futebol de cinco”, tendo ainda passado pelo “futebol de 11”. Apesar disso, afirma que, quando experimentou o futsal, não quis outra coisa. “O futsal é um desporto que pode ser praticado por qualquer um, basta que a pessoa seja inteligente e que tenha bom passe. Há muito contacto com a bola, o jogador sente-se alegre a jogar futsal e foi isso que me levou a ingressar e a permanecer na modalidade”, recorda.
O facto de ser de Bragança, cidade do interior do país, nunca demoveu o ex-internacional português do objetivo de chegar longe no futsal. Salientando o aspeto de haver menos oportunidades neste tipo de regiões do que nos dois grandes centros- Porto e Lisboa-, Arnaldo defende que se ao sonho se juntar a vontade de trabalhar, “não importa se o jogador é de Bragança, Lisboa ou Porto”.
No caso do “Expresso de Bragança”, alcunha que ganhou nos tempos de Benfica devido à sua velocidade e às constantes viagens que fazia até à cidade natal para visitar os pais, a possibilidade de viver exclusivamente do futsal tornou-se mais efetiva na temporada 1998/1999, altura em que deixou os Pioneiros de Bragança e rumou a Espanha. Apesar de só ter ficado um ano no país de nuestros hermanos, Arnaldo confidencia que foi nessa altura que aprendeu “tudo sobre futsal”.
Regresso a Portugal e conquista de troféus
Os dados estavam lançados para aquilo que viria a ser uma carreira de sucesso. No regresso a Portugal, Arnaldo representou o Instituto D. João V durante duas épocas, ingressando depois no Freixieiro. A passagem pelo clube de Matosinhos durou apenas uma temporada, mas foi o tempo necessário para ser feita história: o Freixieiro conquistou o único título de campeão nacional da sua história. Arnaldo explica que o sucesso alcançado naquele ano resultou de um conjunto de fatores: “O clube era profissional e muito organizado, deu-nos todos as condições para trabalharmos bem. Para além disso, tínhamos um grupo muito bom”.

Arnaldo apontou um golo na final da UEFA Futsal Cup conquistada pelo Benfica (Fonte: UEFA.com)
Ao Freixieiro seguiu-se o Benfica, clube que representou durante mais tempo na carreira e onde alcançou aquele que descreve como o seu maior feito: a conquista da UEFA Futsal Cup em 2010. Assumindo que, “com a chegada do Benfica, o futsal ganhou outra visibilidade”, o atleta que conta com 208 internacionalizações pela seleção portuguesa acrescenta ainda que a entrada em cena dos encarnados foi positiva na medida em que obrigou as outras equipas, nomeadamente o Sporting, a um maior investimento. Ao serviço do clube da Luz, que representou entre 2002 e 2004 e 2007 e 2012 (teve uma passagem por Espanha pelo meio), o camisola 16 vila-condense conquistou cinco campeonatos nacionais, quatro Taças de Portugal e quatro Supertaças.
Com 32 anos, o “Expresso de Bragança” decidiu voltar a emigrar. Se da Letónia recorda o clima frio e o pouco desenvolvimento do futsal, as memórias de Itália estão mais relacionadas com a qualidade dos jogadores e com a cultura do país. De Inglaterra, o ala destaca o “amadorismo quase completo”:
Senhor “208” e as perspetivas para o futuro
Falar-se de Arnaldo Pereira sem se falar da seleção portuguesa é uma tarefa praticamente impossível. O jogador de 39 anos estreou-se em 1999 pelo conjunto das Quinas, tendo alinhado 208 vezes por Portugal. Apesar de revelar alguma tristeza por não ter feito parte da equipa que conquistou o Campeonato da Europa em 2018, Arnaldo mostra-se orgulhoso pelo seu percurso internacional. “Se representar o seu país apenas por uma ocasião já deixa qualquer jogador feliz, estar no topo em termos de internacionalizações só me pode deixar orgulhoso”, assume o bragantino.
O facto de ainda jogar ao mais alto nível com 39 anos é bem elucidativo do gosto de Arnaldo pela modalidade. Assim, não é de estranhar que, após o término da carreira, o “Expresso de Bragança” queira permanecer ligado ao futsal. “Ser treinador é um sonho meu e, neste momento, já tenho escolas. Quero começar pelos escalões de formação, mas depois gostava de orientar equipas seniores”, conclui o ala.
Se, atualmente, Arnaldo Pereira procura ser o “homem do leme” da caravela vila-condense, o futuro, nas palavras do jogador, “a Deus pertence”. Sendo certo que o fim de carreira está mais próximo do que o início, o mais internacional de sempre com a camisola das Quinas vai continuando a mostrar, semana após semana, que ainda tem muito futsal para oferecer.
Texto: Diogo Matos
Imagem e Edição: Diogo Matos e Margarida Pinto