Reportagens
De meNINO a Lenda – A Burinhosa despede-se de um dos grandes
Chegou a Portugal em 2001 para representar o Instituto D. João V, ainda se transferiu na época seguinte para o Benfica, mas foi na região centro do país que rapidamente se viria a fixar para jogar ao serviço do SC Pombal, Instituto D. João V, Académica de Coimbra e finalmente Burinhosa onde permaneceu nas seis últimas temporadas, ainda que com uma curta passagem na ADR Mata pelo meio. A bonita história da carreira de Nino está prestes a chegar ao fim e, este sábado, em Oliveira de Azeméis, vai cumprir o seu último jogo oficial enquanto jogador, tal como o próprio confirmou ao Futsal Global.
“Eu já tinha pensado em fazer a última época, mas não pensava que ia ser assim tão difícil”, começou por confessar o atleta de 44 anos, que no passado domingo foi alvo de homenagem por parte de toda a estrutura da Burinhosa, com os seus companheiros a entrarem em campo, na partida frente ao Leões de Porto Salvo, com camisolas onde estava estampado o seu nome com direito a uma mensagem especial: “De meNINO a LENDA.”

Naquela tarde de domingo ficou simbolizada a despedida ao experiente atleta, naquele que foi o último jogo oficial que cumpriu no Pavilhão Gimnodesportivo da Burinhosa. Uma despedida com direito a golo, quem sabe o último de mais de 500 que acredita ter marcado no futsal português. O luso-brasileiro ficou sensibilizado com as manifestações de carinho que recebeu e que vai recordar para o resto da vida. “Não estando à espera daquela pequena-grande homenagem, foi mesmo muito marcante. O sentimento que vai ficar é de alegria e de gratidão.”
Nascido em Rio Verde, uma pequena cidade do estado de Goiás, a 19 de janeiro de 1975, como muitos, Nino começou por dar os primeiros passos no futebol e, só em 1998, já com 23 anos, abraçou o futsal, ingressando no clube da terra natal, o Rio Verde Futsal. A história no futsal português começou três anos mais tarde, em 2001, estando ainda bem presentes na sua memória os primeiros passos que deu no nosso país. O Instituto D. João V foi a porta de entrada de um jovem que chegou carregado de ilusões. “Vindo de uma família humilde, vivia aquele sonho de 90 por cento dos miúdos brasileiros em ser jogador. Quando surgiu a oportunidade de ir jogar para fora, não hesitei e aceitei logo. Parti em busca de um sonho”, recorda antes de deixar vincada a satisfação pelo percurso que fez daí para a frente. “Faria tudo de novo.”
Olhando para trás, Nino acredita que o melhor que fica são os laços que foi cultivando com algumas pessoas que teve a oportunidade de conhecer ao longo dos anos. “Nas pequenas homenagens que me têm feito nas redes sociais, tendo eu respondido a alguns amigos que me escrevem, o que mais me marca e que vou levar para a vida são as amizades que fiz no futsal. Conheci muita gente boa e ficaram grandes amizades que não têm preço.” No seu percurso encontrou muitos treinadores e não quis deixar de aproveitar a oportunidade para agradecer a todos pela forma com que o ajudaram a crescer, dentro e fora da quadra, mas há um que mereceu uma palavra especial. “Não posso esquecer todos os treinadores que em Portugal tive a oportunidade e o prazer de trabalhar. Aprendi muito com cada um deles e devo tudo a todos eles, mas não podia deixar de citar o Alex Pinto, porque sem dúvida é especial. Nestas duas épocas ele foi preponderante na gestão do meu final de carreira, conseguindo gerir todos o esforço entre treinos e jogos.”

O próprio técnico da Burinhosa lembra que com a idade de Nino a gestão física tem de ser feita de forma diferenciada. “Ao longo das duas últimas duas/três épocas, a gestão do esforço foi realizada sempre em harmonia com a equipa técnica, com o fisioterapeuta, consoante as indicações que ele nos foi dando. O objetivo era termos sempre o ‘melhor’ Nino ao Sábado.”, explicou Alex Pinto, que ainda assim acredita que o segredo da longevidade da carreira do luso-brasileiro deve-se muito à forma como ele sempre se cuidou. “Sabendo que está inserido numa competição ao mais alto nível, não comete erros, tenta ter o seu descanso e a sua alimentação regrada. Hoje apresenta-se numa forma invejável até para muitos que têm menos vinte anos que ele. É um atleta invulgar, daqueles que infelizmente já não abundam no mundo do desporto.”
Alex Pinto recorda que, numa fase em que treinava ainda os escalões de formação, muito antes de se ter cruzado com Nino, já nutria um sentimento de admiração por ele, que veio a crescer a partir do momento que passou a treiná-lo. Entre os dois existe uma diferença de idade de praticamente dez anos, sendo o atleta mais velho, o que “contraria a lógica”, segundo o técnico, para o qual “o Nino não tem idade, pelo menos não na sua cabeça e na sua competência para jogar, apenas no cartão de cidadão.”
Em 2016 Nino acabou por sair da Burinhosa, dando início a uma curta passagem pelo ADR Mata, mas Alex Pinto rapidamente acabou por resgatá-lo. “A primeira coisa que eu quis fazer quando me foi confiado o cargo de treinador principal foi trazê-lo de volta. O Nino é provavelmente a pessoa que mais me deu em termos de conhecimento do jogo, de experiências, de vivências, enriquecendo-me como treinador.” A admiração que o técnico tem pelo experiente jogador fica bem patente nas suas palavras. “Se calhar nunca lhe disse a ele, mas aproveito para dizer que os treinadores também aprendem com os jogadores e eu aprendi muito com o Nino. É uma referência na Burinhosa para todo o balneário”, confessou.
Alex Pinto não tem dúvida de que é um privilégio ter-se cruzado com Nino ao longo dos últimos anos e menos dúvidas tem de que treinou um dos grandes do futsal português. “Para mim fica para sempre a marca de ter sido treinador do Nino, não só pelo jogador que é, pelo que se entrega em campo, pelo seu compromisso, pela sua alegria e forma de estar – com 44 anos às vezes parece uma criança a treinar, de sorriso na cara -, mas também pelo ser humano fantástico que ele é”, rematou.
Nino ainda não sabe o que vai fazer no futuro, mas gostaria de ficar ligado à modalidade, mesmo não sabendo de que forma. “Quando vim para o Instituto D. João V, uma das condições era ter que trabalhar na escola. Mesmo com o fim do clube mantive o emprego até janeiro do ano passado, altura em que fui despedido. Com o fim da carreira de jogador tenho que dar um novo rumo à minha vida. Ainda não sei o que vou fazer, mas com a paixão que eu tenho pelo futsal, queria continuar ligado de alguma maneira à modalidade.”

Este sábado, quando os relógios marcarem as 18h00, Nino vai entrar em campo para jogar o último capítulo de uma bela história, com o Pavilhão Municipal de Oliveira de Azeméis a despedir-se de um dos grandes que ascendeu ao patamar das lendas do futsal nacional, deixando um legado ímpar. Golos, acredita ter feito mais de 500, mesmo não tendo a certeza absoluta dos números. “Também foram muitas épocas”, brincou.































