Reportagens
Os Lombos são o espelho de um feminino em crescimento – mas com solavancos
Há um largo espectro de mudanças entre as memórias do final do século XX e o que se vê nos ringues atuais. Deixaram-se os ringues, na verdadeira aceção da palavra, e adotaram-se pavilhões, desenvolveram-se os treinadores e, claro, abriram-se portas à entrada de mais atletas. Já nos anos 90, contudo, a Quinta dos Lombos era uma das referências do futsal feminino em Portugal. O palmarés não é extenso, mas a história acompanha – e faz quase que um guia cronológico – a evolução da modalidade em Portugal.
Fernanda Piçarra é um dos rostos mais marcantes desta história. É já com ela no comando técnico que os Lombos vencem a Taça de Portugal em 2015, frente à Novasemente, por 2-1. Duas épocas antes, a turma de Carcavelos conquista a Taça Nacional – equivalente ao atual Campeonato Nacional.
Chega no final de 1997 – o Nacional de Ginástica da Parede extingue o futsal e grande parte das atletas seguem para a Quinta dos Lombos – e é em 2005 que vê a grande mudança para o futsal do clube lisboeta. Mas já lá vamos.
Antes disso, a carreira de Fernanda termina por uma lesão e – como “os fim-de-semana eram muito longos”, palavra de treinadora – começa a aventura como técnica, primeiro no Costa do Estoril, depois no Nacional de Ginástica, até chegar aos Lombos. É aqui que queremos chegar.
O projeto, para o qual Fernanda entra em 1997, dá um pulo até à conquista de títulos. Pelo caminho procura-se criar uma equipa competitiva – “para ombrear com o Benfica”, diz referindo-se ao domínio encarnado no futsal feminino – e apostar na formação de atletas.
Esta aposta na formação é uma das bandeiras do clube – e que Fernanda Piçarra destaca, com a conquista do campeonato de juniores em 2002/03, no mesmo ano em que a equipa é criada – e conseguiu criar uma base de trabalho, apesar de a mesma não se refletir atualmente nas seniores do clube, quer pela dificuldade de integração entre trabalho e futsal, quer pela captura dos “grandes” das melhores jovens dos emblemas periféricos (algo que já não acontece garante Fernanda e Niki, técnica das seniores do Lombos, até por terem a sua própria formação).
Na verdade, o fenómeno é o inverso, com muitas atletas jovens de Benfica e Sporting a aterrarem nos clubes periféricos. Porém, antes, a chegada do Sporting ao campeonato nacional trouxe uma “debandada” ao clube de Carcavelos, com nove atletas a ingressarem nas “leoas”. Niki, à época atleta dos Lombos, lembra precisamente isso: “Na altura em que estávamos na fase mais evoluída da formação foi quando saíram muitas miúdas para o Sporting”.

Foto: CRC Quinta dos Lombos/LAzevedo
Um projeto de conquista, cortado a meio
Vamos a 2005, um marco para Fernanda Piçarra. É construído o pavilhão que dá guarida ao Lombos, uma peça importante para criar estabilidade – uma “diferença abissal”. As diferenças nas condições de trabalho permitiram atrair novas jogadoras, mas também atletas para a formação, com menos preocupação pelos pais.
“Quando fomos para o pavilhão éramos equipa para estar no quarto lugar. E a partir daí já com alguma estrutura, com o pavilhão, com a formação que já estávamos a fazer, começámos a ombrear com o Benfica”, conta Fernanda.
Os primeiros títulos do clube resultaram do ombro a ombro com o Benfica, no distrital de Lisboa. Em 2007, o primeiro título, dez anos após a chegada de Fernanda Piçarra, o plantem tinha “algumas jogadoras que vinham da formação e estavam lá há muitos anos”, como recorda a antiga treinadora.
Mas essa base não se manteve, com a saída de várias atletas para o Sporting. “Foi a integração do Benfica na estrutura do clube e depois claro que a entrada do Sporting para o campeonato nacional veio trazer uma nova realidade às jogadoras”, aponta Fernanda Piçarra.

Foto: CRC Quinta dos Lombos/LAzevedo
Nos últimos anos, Niki, que foi treinada por Fernanda, tomou conta da equipa – o clube está em terceiro no lugar, na fase de apuramento de campeão, com duas jornadas decorridas. O projeto continua a existir e há esperança na próxima fornada, com o objetivo claro de querer títulos nos próximos anos. A constituição de um plantel formado por muitas jovens também é um tratado para o futuro, sendo visto como a base para criar uma equipa com rotinas e que se conheça bem.
“Os clubes que têm melhores condições financeiras acabam sempre por ter alguma vantagem porque conseguem dar condições às atletas que nós não conseguimos”, explica Niki.
A atual técnica da Quinta dos Lombos acrescenta ainda que “sem haver apoios ou patrocinadores para todos os clubes torna-se difícil”. E elabora: “acabamos por não conseguir sequer fazer face às despesas que as atletas têm quanto mais conseguir aliciá-las para integrar o nosso projeto. É difícil”.