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Foto: Zé Paulo Silva/Futsal Global

Reportagens

“Temos que olhar para o futuro e ambicionar mais”, metas da FPF para o futsal feminino

Portugal fez história ao organizar o primeiro Europeu de Futsal Feminino. A competição colocou a modalidade na agenda mediática nacional, e os resultados são promissores. Na perspectiva da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), “foi muito positivo” ter assumido a organização do evento, ao qual “faltou apenas a cereja no topo do bolo”. Quem o diz é Pedro Dias, o homem-forte do futsal na FPF, que faz questão de sublinhar que “ser vice-campeão da Europa numa seleção absoluta é um resultado excepcional no nosso país”. Reconhecendo que a ambição era outra, vencer, lembra no entanto que a seleção de “futsal feminino português foi a primeira a alcançar esse resultado no nosso país [um segundo lugar num campeonato da Europa] e acho que isso é que deveria ser destacado e valorizado”.

Luís Conceição, seleccionador nacional, faz coro com Pedro Dias: “Queríamos mesmo muito ganhar, como é óbvio. Não foi possível. Haverão certamente outras oportunidades.” Recusando comparações com a vertente masculina, mostrou-se confiante no futuro: “temos que fazer o nosso caminho, mostrar que o futsal feminino é um bom espectáculo”. Algo que, reitera, já é a opinião do público. “A final do Europeu foi o programa mais visto do dia na RTP, chegando mesmo a ultrapassar o share da maioria dos jogos de futebol masculino, o que é demonstrativo de que as pessoas gostam do espectáculo.” E não foi só a final. Desde o início do apuramento que as audiências têm dado argumentos para sustentar esta tese, e Luís Conceição é peremptório em dizer que “se as pessoas não gostassem, não viam. Podiam ver uma vez mas não repetiam se não achassem atrativo”.

Foto: Zé Paulo Silva/Futsal Global

O interesse nacional no futsal feminino já tinha sido ‘testado e aprovado’ aquando da participação da seleção nacional sub-19 nos Jogos Olímpicos da Juventude (JOJ). Também a final dessa competição teve honras de transmissão televisiva, e os números demonstraram mais uma vez que foi uma aposta bem-sucedida.

Bem sucedida, também, foi a equipa nacional, que arrecadou a medalha de ouro, coroando uma excelente campanha das sub-19. “Começamos a trabalhar mal soubemos da possibilidade de o futsal ser incluído”, conta o seleccionador nacional. “Sabiamos que só estariam presentes duas seleções por continente, e Portugal queria muito ser uma delas.” [a outra representante foi a Espanha]. “Começamos logo a referenciar atletas sub-16, atletas com 14/15, e foram passando n delas [não sabe precisar o número] pelos estágios de observação”. Assim, foi possível “proporcionar momentos competitivos que lhes permitissem [às atletas] evoluir e estar preparadas para a competição”, explica Luís Conceição. “A campanha nos JO em si foi o reflexo de todo trabalho, que foi recompensado com a vitória”, remata.

Sucessos que começam a dar frutos

A participação portuguesa nos JOJ e no Europeu de Futsal Feminino já estão a dar frutos. Luís Conceição conta que, logo no dia a seguir à vitória das sub-19, houve pais a dirigirem-se aos clubes das suas localidades para inscreverem as filhas no futsal. Após o Europeu, “o feedback dos clubes é que está a acontecer outra vez”, com pais a incentivarem as filhas e a inscreverem-nas nos clubes para jogar futsal.

Números oficiais ainda não há, até porque a época não está fechada, mas mesmo Pedro Dias confirma a tendência ascendente: “os indicadores que temos neste momento é que vamos ter o ano com o maior crescimento do futsal em Portugal, onde naturalmente o futsal feminino também registará o maior crescimento em termos absolutos”.

Foto: Zé Paulo Silva/Futsal Global

Criação do Campeonato Nacional foi “o grande salto”

Entre 2004 e 2010 houve um hiato na seleção nacional feminina. Questionado sobre o impacto que este interregno teve no desenvolvimento da modalidade, Pedro Dias é pragmático: “houve um hiato, ponto final. Não há nada a fazer neste momento”. Prefere, em alternativa, analisar o percurso de desenvolvimento do futsal feminino em Portugal. “Não havia campeonato nacional, as provas nacionais limitavam-se a uma Taça Nacional, e também não havia provas de formação. Era a realidade do momento”, começa por dizer o responsável da FPF.

O seleccionador nacional recorda-se bem dessa altura. Luís Conceição, cujos primeiros anos de carreira, que já vai quase em 20, foram dedicados ao futsal masculino, começou a trabalhar com o feminino duas épocas antes da implementação do campeonato nacional, que considera ter sido “o grande salto”. O modelo de competições regionais seguidas da Taça Nacional não era o ideal, e a implementação do Campeonato Nacional veio permitir que “as melhores atletas se defrontem de semana a semana, o que é fundamental para a evolução delas”, analisa o seleccionador.

As competições desportivas “são muito importantes no processo de desenvolvimento” e “reflectem aquilo que é a dinâmica interna, a seleção nacional e os trabalhos da seleção nacional”, afirma Pedro Dias, e, por isso mesmo, a FPF alterou aquela que era a realidade, apostando na criação do Campeonato Nacional Feminino, no alargamento dos escalões ao nível da seleção nacional, e na criação e dinamização de mais momentos competitivos para todas as seleções. O diretor para o futsal do órgão máximo da modalidade opina que as seleções nacionais têm “as condições adequadas neste momento”, que são “as condições possíveis dado o nível de desenvolvimento que tem o nosso país”. Reconhece, no entanto, que não são as ideais, e, que “temos que olhar para o futuro e ambicionar mais”.

Sobre o futuro, Luís Conceição mostra-se confiante. A criação das seleções nos escalões sub-17 e sub-19 permite “a realização de mais momentos de trabalho” em contexto de seleção, o que é benéfico para a formação das atletas. “Falando nas atletas de sub 19, por exemplo, vão chegar à idade de uma Inês Fernantes, uma Ana Azevedo ou uma Pisko com muito mais internacionalizações A”. Esta experiência vai fazer diferença, vaticina o seleccionador.

Foto: Zé Paulo Silva/Futsal Global

Crescimento é o objetivo

Alargar ainda mais os escalões de formação é um dos objetivos da FPF, segundo Pedro Dias. “Mais praticantes, meninas e mulheres a jogar futsal, para podermos ter outras condições a nível dos quadros competitivos e das seleções”, e “termos mais seleções”. Mas o dirigente deixa um alerta: este crescimento “vai ser acompanhado de forma sustentada”. O que é que isto significa? Significa que “à medida que formos aumentando o número de atletas nos escalões de formação vamos dar continuidade a esse crescimento, tendo espaços de seleção para esses escalões”.

A Federação, assegura Pedro Dias, está atenta ao que se passa cá dentro e lá fora. “Tivemos agora a primeira edição de um campeonato da europa sénior. Esperamos, num horizonte temporal de médio longo termo, ter competições de formação internacionais, nomeadamente europeu de sub 19.” A estrutura da FPF está também a acompanhar os JOJ e, caso o futsal se mantenha no programa da competição, será sem dúvida “um espaço importante”. A par das competições internacionais, a estrutura dirigente da modalidade vai continuar a acompanhar e apoiar as competições escolares e universitárias, às quais reconhece importância e valor pois “são espaços também de crescimento e desenvolvimento de excelência para os nossos jovens poderem expressar o seu potencial”, afiança Pedro Dias.

 

“Se a modalidade apresentasse condições para ser profissional já seria profissional”

A estratégia parece delineada em termos federativos, mas a verdade é que o trabalho dos clubes é crucial para que o futsal feminino cresça. O Europeu serviu de montra às seleções participantes e respetivas atletas, e as análises comparativas eram inevitáveis. Ainda durante o jogo da final, sublinhou-se o facto de, na seleção nacional, apenas as duas atletas que jogam em ligas estrangeiras são profissionais de futsal [Jenny joga em Espanha e Taninha em Itália], por contraponto às espanholas, todas elas profissionais da modalidade. Ora isto levantou a questão da profissionalização no campeonato nacional, questão essa que Pedro Dias afirma que não pode ser levantada de forma leviana, e é peremptório: “se a modalidade apresentasse condições para ser profissional já seria profissional”. O homem-forte do futsal na estrutura que rege também o futebol lembra que é precisamente essa a única modalidade desportiva que, em Portugal, tem estatuto profissional que é conferido pela lei. Pedro Dias explica que as disposições legais aplicáveis “estabelecem parâmetros para atribuir o estatuto de modalidade profissional”, e que as únicas duas modalidades colectivas de pavilhão que no passado foram profissionais [o andebol e o basquetebol] hoje em dia já não o são, e, sublinha “sempre no masculino nunca no feminino”.

“Não me parece que existam condições num curto espaço de tempo para termos estatuto profissional para o futsal em Portugal. E isso advém de vários outros parâmetros que não tem que ver só com o número de praticantes, o número de clubes, o número de treinadores, e o número de agentes desportivos, tem que ver com outros critérios, que são importantes para que haja sustentabilidade para que as modalidades possam desenvolver a sua atividade dessa forma”. O diretor da FPF remata a questão dizendo que não conhece nenhum país, na Europa ou no mundo, que “tenha uma competição profissional feminina de futsal”.

Questionado sobre se a profissionalização do campeonato poderá ser uma realidade no curto médio prazo, Luís Conceição mostra-se céptico, e explica porquê: para isso “é necessário que haja uma estrutura de apoio enorme, com empresas a associarem-se e a patrocinar, tal como acontece em Espanha”, algo que reconhece “não ser fácil, particularmente em clubes de menor dimensão e até pela própria dimensão do país”. No entanto, reitera a mensagem de que é importante que haja um reforço ao nível das unidades de treino das equipas [tema que abordou após a final do Euro]. “Há equipas que trabalham da mesma forma que trabalhavam antes de existir o Campeonato Nacional”, mas a exigência claramente não é a mesma, atira. “Pelo menos mais 1h e meia/2 horas de treino semanal já seria um avanço importante”.

Este é o desejo do seleccionador nacional, que Pedro Dias reconhece ser importante, mas lembra que isso não pode ser imposto pela Federação, até por estar ciente que esse aumento do volume de treinos “tem que ser acompanhado com condições localmente, por parte dos clubes, nomeadamente a disponibilidade das instalações e a disponibilidade dos agentes que participam no treino”. Finaliza lembrando que, apesar de tudo, “nos últimos anos melhoramos significativamente o volume de treino das atletas” e que esse é o caminho para o futuro.

Foto: Zé Paulo Silva/Futsal Global

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